WhatsApp

Medicina de família e comunidade

A medicina que meu pai me mostrou primeiro


Eu não escolhi a medicina de vínculo lendo sobre ela. Escolhi ouvindo falar do meu pai, e depois levei alguns anos de serviço público para entender o que tinha escolhido.

Este texto conta essa história. Em dois momentos do caminho eu esbarrei em gente que já tinha dado nome ao que eu vivia, e nesses dois pontos eu digo o nome. O resto é o que eu vi.

O elogio que eu ouvi a vida inteira

O elogio que eu ouvi a vida inteira sobre meu pai era sempre o mesmo. As pessoas diziam que ele oferecia, nos lugares onde trabalhava no serviço público, o mesmo acolhimento e o mesmo zelo com os detalhes do cuidado que praticava no consultório particular. Eu nunca ouvi aquilo como uma virtude extraordinária. Ouvi como a descrição de um jeito de trabalhar.

Eu vi pouco desse trabalho de perto. O que chegava até mim eram as histórias dos outros e o cansaço dele no fim do dia, que era o mesmo cansaço nos dois empregos. Ficou isso: ele gastava a mesma coisa nos dois lugares, e ninguém em casa achava aquilo digno de comentário.

Me formei determinado a fazer igual. Coloquei aquilo entre os meus princípios antes de ter qualquer prática própria: o cuidado não muda de qualidade conforme quem paga por ele. Era um princípio herdado, e princípio herdado é fácil de carregar enquanto não custa nada.

A inspiração veio de casa. O aprendizado continua no serviço público.

Na época eu imaginava que o consultório era o lugar onde a medicina ficava boa, e que o serviço público recebia o que sobrasse dessa qualidade. Levei anos de SUS para ver que o movimento também corre no outro sentido, e que esse é o sentido que quase ninguém nomeia.

Comecei no serviço público, no interior do Amazonas. Hoje divido a semana entre a saúde da família na rede pública e o consultório. O que eu aprendo em um lugar vai para o outro toda semana, e a maior parte vem do lado da rede pública.

Uso o presente de propósito. A atenção primária não é uma escola de onde eu saí diplomado. É uma escola em que eu ainda estou. Toda semana ela ensina alguma coisa que o consultório sozinho não ensinaria, e é por isso que eu não larguei nenhum dos dois.

Um exemplo do que eu quero dizer. Na rede pública o tempo é curto e a fila é real, então você aprende a decidir o que precisa ser resolvido hoje e o que pode esperar, sabendo que vai haver uma próxima vez porque aquela pessoa é sua e vai continuar sendo. Essa habilidade não melhora com consultas mais longas. Ela melhora com mais anos atendendo a mesma comunidade. Quando eu levo isso para o consultório, onde o tempo é maior, o tempo que sobra vai para a conversa.

A primeira lição foi centrar na pessoa

A primeira lição que eu trouxe de lá foi centrar o cuidado na pessoa: na história dela, no contexto inteiro, ao longo do tempo. Aprendi isso onde havia pouco de tudo, menos tempo de convivência.

Numa unidade de saúde da família você atende a mesma pessoa durante anos, e ela chega com a vida junto. O trabalho, o sono, a casa, o dinheiro, quem mora com ela. Não dá para separar o problema da pessoa quando as duas coisas chegam juntas, e depois de um tempo você para de tentar.

Anos depois eu descobri que isso tinha nome e que alguém já havia medido. Stewart e colegas descreveram, num trabalho publicado em 2000, que consultas mais centradas na pessoa vinham acompanhadas de menos exames pedidos e menos encaminhamentos. Eles chamaram aquilo de eficiência. Eu tinha aprendido a mesma coisa no posto, sem nome e sem número, atendendo gente que muitas vezes não tinha para onde ser encaminhada.

A racionalidade da escassez

Quem aprendeu a decidir com pouco exame não decide pior quando o exame está disponível. Decide sabendo para que serve pedir. A escassez ensina a fazer a pergunta antes de solicitar o teste, e essa pergunta continua sendo a parte difícil em qualquer cenário.

Isso é leitura minha sobre a minha prática. Não tenho como demonstrar que funciona assim para todo mundo, e não é isso que eu quero dizer aqui. Digo que foi assim comigo: a parte da minha medicina que melhor aproveita o recurso é a parte que eu aprendi onde não havia recurso.

A segunda lição levou mais tempo

A segunda lição foi que continuar sendo o mesmo médico de uma pessoa faz parte do cuidado, e não é apenas um arranjo de agenda.

Isso eu vi acontecer muito antes de saber que se estudava. Uma pessoa que eu acompanho há três anos entra na sala e metade da consulta já está feita, porque eu sei o que aconteceu no ano passado e ela sabe que eu vou lembrar. A conversa começa mais adiante. Algumas decisões ficam mais fáceis, e outras não precisam ser tomadas de novo.

Demorei a entender que aquilo era parte do trabalho, e não uma economia de esforço. Uma pessoa que me conhece me conta coisas que não contaria na primeira consulta, e o que ela conta muda o que eu decido. Isso não é um bônus que aparece depois de anos: é a razão pela qual os anos importam.

Esse é o segundo ponto em que eu esbarrei num nome. Chama-se longitudinalidade, e a literatura de atenção primária a descreve como um dos atributos do cuidado. Starfield, Shi e Macinko, num trabalho de 2005, colocam a relação de uma pessoa com uma fonte regular de cuidado entre os caminhos pelos quais a atenção primária faz diferença. Quando eu li aquilo, o que eu senti foi reconhecimento. Era o nome de uma coisa que eu já estava fazendo.

Como eu trabalho hoje

O que eu descrevo aqui é o meu método de trabalho, e não orientação sobre a saúde de quem lê.

O acompanhamento é longitudinal por desenho. A consulta não encerra um episódio: ela abre ou continua um registro que atravessa o tempo. Eu leio o contexto inteiro porque a decisão clínica muda quando ele está na mesa. Exame se pede quando a pergunta já existe, e a pergunta se constrói na conversa. Quando outra área precisa entrar, a coordenação continua sendo minha, e a pessoa não fica encarregada de costurar sozinha os pedaços do próprio cuidado.

É o mesmo desenho no consultório e na unidade pública. Muda o cenário, mudam os recursos, e não muda o que eu considero um bom atendimento. Era esse o princípio que eu herdei antes de ter prática própria, e é o único que eu nunca precisei revisar.

O que mudou foi de onde ele vem. Aos vinte e poucos anos, aquilo era uma promessa que eu tinha feito a mim mesmo por causa de um exemplo em casa. Hoje é uma coisa que eu vejo funcionar, nos dois lugares, toda semana, e que eu já não conseguiria desfazer.

Onde esse cuidado acontece

A atenção primária do SUS forma médico. É o que eu vivi.

Referências

  1. Stewart M, Brown JB, Donner A, McWhinney IR, Oates J, Weston WW, Jordan J. The impact of patient-centered care on outcomes. The Journal of Family Practice, 2000;49:796-804. europepmc.org/article/MED/11032203 (acesso em 2026-09-01)
  2. Starfield B, Shi L, Macinko J. Contribution of primary care to health systems and health. The Milbank Quarterly, 2005. doi.org/10.1111/j.1468-0009.2005.00409.x (acesso em 2026-09-02)

Conteúdo informativo, não substitui avaliação médica individual.

← Todos os artigos